Venezuela:  “A nossa prioridade não é só afastar Maduro. É sair da ditadura e construir um país que gere estabilidade”

Venezuela:  “A nossa prioridade não é só afastar Maduro. É sair da ditadura e construir um país que gere estabilidade”

O coordenador do partido opositor Vontade Popular, que passou sete anos preso e vive desde outubro exilado em Espanha, passou por Lisboa para pedir maior apoio de Portugal no esforço para uma mudança de regime. Ao Diário de Notícias de Portugal, falou do passado e do futuro para a Venezuela.

Após sete anos privado de liberdade na Venezuela e uma fuga para o exílio em Espanha, Leopoldo López, de 50 anos, tem procurado reunir apoios no estrangeiro para uma mudança de regime. O coordenador nacional do partido Vontade Popular esteve ontem em Lisboa para encontros políticos, incluindo com o líder do PSD, Rui Rio. Numa entrevista ao DN, pede um esforço redobrado à comunidade internacional, lembrando que Nicolás Maduro conta com apoios formidáveis do seu lado.

 

O Supremo Tribunal da Venezuela pediu na terça-feira a Espanha a sua extradição. Como reage a esse pedido?

A perseguição, a mentira, a manipulação são uma prática normal da ditadura. Quem está a pedir esta extradição é um procurador e um tribunal que são alvo de sanções da União Europeia, dos EUA e dos países da América Latina. São pessoas claramente identificadas com atos de corrupção, de manipulação do Estado de Direito, e são cúmplices da ditadura. Não há qualquer sustento legal para isso. Creio que é um pedido que nem sequer devia ser admitido pelo claro componente político e por quem o pediu.

 

Passou sete anos preso. Tem medo de voltar à prisão?

Não, com toda a franqueza digo que durante todo o período que estive na prisão e privado de liberdade nunca tive medo. Conheci o que era a liberdade por não a ter. Fui torturado em confinamento solitário durante boa parte de quatro anos. A própria ONU qualificou o meu caso, como o de muitos outros, de detenção arbitrária e tortura. São situações muito difíceis, por que muitas pessoas tiveram que passar. Mas medo não. Estou disposto, como estive no passado, a assumir os riscos que forem necessários. Hoje cabe-me, como a milhões de venezuelanos, estar no exílio, estar fora do meu país, mas sempre com a Venezuela e o seu destino como prioridade de tudo o que fazemos.

 

Passaram mais de dois anos desde que foi libertado, num movimento de revolta que acabou por não dar frutos, e em outubro de 2020 conseguiu fugir para Espanha. Arrepende-se de alguma coisa?

Arrependo-me que não tenhamos conseguido a liberdade. Que o custo de não termos conseguido a liberdade seja muito alto para a Venezuela e para milhões de venezuelanos. É uma realidade que temos que enfrentar todos partindo do facto de que estamos a enfrentar uma ditadura. Como dissemos em 2014 – e muita gente me disse que éramos muito exagerados – não só uma ditadura, como podiam ter países europeus ou outros da América Latina, mas uma ditadura criminosa. É o que diz o Tribunal Penal Internacional, onde estive na semana passada, também o diz a ONU, a Comissão de Direitos Humanos e o Conselho de Direitos Humanos. Quando há uns anos começámos a denunciar claramente a ditadura, para alguns parecia um exagero ou uma posição política. Hoje é uma realidade que está provada por todos os relatórios que se fizeram da maneira mais imparcial sobre a situação na Venezuela. Estamos a enfrentar uma ditadura criminosa e para conseguir uma saída precisamos do apoio dos países democráticos e livres do mundo e por isso estamos em Portugal.

 

Em janeiro de 2019, Juan Guaidó proclamou-se presidente interino da Venezuela. Já passaram mais de dois anos e Nicolás Maduro continua no poder, não houve uma mudança de governo. Foi um erro dar aquele passo?

Não acho. Foi um passo que permitiu contrastar ainda mais com a ditadura, deixar em evidência a ilegitimidade do executivo, por causa das eleições fraudulentas de maio de 2018, e agora a ilegitimidade do Parlamento, pelas eleições fraudulentas de 2020. Houve um reconhecimento da nossa luta, que é a de conseguir eleições, não só da legitimidade de Juan Guaidó e da Assembleia. Mas mais além disso, era um mandato constitucional. A Constituição da Venezuela estabelece que, ao não haver um presidente legítimo, deve assumir a presidência o presidente da Assembleia Nacional. Era um mandato constitucional que conseguiu o apoio popular e internacional.

 

Então porque é que Maduro continua no poder?

Maduro continua no poder porque é um ditador, porque é um criminoso, e porque conta com o apoio formidável de países que, por interesses diferentes, apoiam a ditadura de forma determinada. Refiro-me à China, à Rússia, à Turquia, ao Irão, a Cuba. São países que deram um apoio à ditadura em questões económicas, em lavagem de dinheiro, em fornecimento de gasolina, em refinação e comércio do ouro de sangue, em diplomacia ativa e proativa, em financiamento, em inteligência militar, em equipamento militar… É por isso que nós, aos países democráticos e livres, estamos a pedir um apoio muito determinado. Porque a Venezuela não é só o território venezuelano. É parte de uma luta para promover e proteger as democracias que hoje, não só na Venezuela, mas também noutros países da América Latina e do mundo, estão a ser debilitadas por países autoritários, que as procuram derrotar desde dentro.

 

Mas acha que ainda é possível pela via diplomática, pacífica, uma mudança de governo?

Ontem o presidente Guaidó apresentou uma proposta que vai na direção que nós temos vindo a defender. Que a saída, como disse a União Europeia e que subscreveu Portugal, vem de uma solução política para a crise. É muito importante que quando pensemos e falemos da Venezuela não nos fiquemos na dimensão política do problema. O problema venezuelano tem uma origem política, que é a ditadura, mas a consequência é tremendamente trágica para milhões de venezuelanos. Hoje a Venezuela, que foi o país mais próspero da América Latina, segundo o Fundo Monetário Internacional é o país mais pobre. Há quase sete milhões de venezuelanos que foram forçados ao exílio. Na Venezuela não há luz, não há água potável, não há gasolina, não há alimentos. Há 90% da população em situação de pobreza, 60% da população em pobreza extrema. Há dor, fome, incerteza e isso tudo é consequência do modelo político.

 

E qual é a solução?

A solução pensamos que tem que ser, como disse o presidente Guaidó, uma solução política, que requer uma negociação e um acordo. O presidente Guaidó fala de um acordo de salvação nacional que nos permita acordar um caminho que nos leve a eleições parlamentares e presidenciais e que tenha como resultado estabilidade política, estabilidade económica. É possível isso, eu acho que sim, mas sozinhos não conseguimos. Só é possível se tivermos o apoio determinado dos EUA e da Europa, não como observadores de um processo, nem da diplomacia distante e passiva, mas do compromisso ativo e proativo, entendendo que a Venezuela, para Portugal, não é um país distante.

 

Fala dos laços que existem…

Há 120 mil portugueses que vivem na Venezuela e há dezenas de milhares de filhos de portugueses que hoje estão aqui, vindos da Venezuela. É uma realidade histórica a que nós temos com este país. Quando nós venezuelanos pensamos na Europa, pensamos em três países: Portugal, Itália e Espanha. Mas a marca da presença portuguesa na Venezuela está muito presente. Esperamos que Portugal tenha uma posição muito clara, muito determinada, muito coerente, com a sua Constituição, com o que são os princípios que unem os países da União Europeia, com os tratados internacionais, e que apoie de forma determinada a democracia na Venezuela. Hoje a democracia tem que ser defendida, está sob ataque em vários países do mundo. E às vezes há a relativização do que é a democracia e há concessões ao autoritarismo, com o fim do estado de Direito, com os populismos irresponsáveis que levam à destruição dos países. Foi isso que aconteceu na Venezuela e é preciso um apoio muito determinado por parte de Portugal e Europa.

 

Sente que não é suficiente o que está a ser feito?

Acho que se pode fazer mais. Neste momento, quando há uma proposta muito concreta da parte do presidente Guaidó sobre a mesa, que é impulsionar um processo de negociação para um acordo de salvação nacional, requer-se a ativação da diplomacia ao mais alto nível e da maneira mais determinada. A tragédia que se vive na Venezuela, moralmente, não pode ser ignorada por um país tão próximo da Venezuela como é Portugal.

 

Falou da comunidade portuguesa na Venezuela e nos que voltaram a Portugal. Tem alguma mensagem para eles e para os portugueses?

Há uma presença muito marcada de Portugal e da Madeira na Venezuela. Para nós, os portugueses são um exemplo de trabalho, de tenacidade, de perseverança. Muitos portugueses chegaram à Venezuela a fugir da precariedade económica, da falta de liberdade cá em Portugal no século XX. Chegaram à Venezuela e com trabalho ajudaram a construir a Venezuela que chegámos a ser em meados e no final do século XX. Uma Venezuela com níveis de prosperidade e de bem-estar, com a participação e incorporação de práticas de ética de trabalho, de tecnologia. Aos portugueses que estão aqui digo que olhem para a Venezuela como um povo irmão e que saibam que os venezuelanos esperam muito dos portugueses na conquista da liberdade.

 

Houve uma mudança de estratégia da vossa parte? Porque nessa proposta Guaidó também está aberto à ideia de os EUA levantarem algumas das sanções em troca dessa abertura…

Isso tem sido dito pelo presidente Guaidó, pela Assembleia Nacional, os EUA ou a Europa desde 2019. Em 2020 apresentou-se uma proposta para um esquema de transição onde já se contemplava o levantamento de sanções. E um processo de acordo nacional requer que estejam postos sobre a mesa as inquietações e os interesses de ambas as partes e sem dúvida que o tema relevante para a ditadura são as sanções. E sem dúvida que nós pensamos, no âmbito de um acordo, em ir levantando as sanções à medida que os objetivos são cumpridos, é sensato. E ajudaria a alcançar um acordo.

 

Que impacto teve a eleição de Joe Biden nos EUA?

Biden muda a dinâmica da política exterior americana em vários sentidos, mas num em particular, que é a abordagem multilateral a todos os temas. A chegada de Biden, esta nova administração, abre a oportunidade para uma colaboração mais estreita e com mais confiança entre a Europa e EUA.

 

Acha que 2021 será o ano do adeus a Maduro?

Penso que é um erro colocar uma data, porque isso pode criar expectativas e depois frustram-se essas expectativas. Estamos a fazer tudo o que podemos para que seja o mais rapidamente possível. E que seja um marco que gere prosperidade. Porque a nossa prioridade não é só tirar Maduro. É sair da ditadura e construir um país que gere estabilidade e bem-estar para a população. E isso só podemos fazer no âmbito de um acordo que tenha países garantes, que deem garantias de estabilidade política. Sem estabilidade, depois de uma transição e do fim da ditadura, não estaríamos a dar aos venezuelanos a resposta que necessitam.

 

Como está a situação com a covid-19 na Venezuela?

A Venezuela, em relação à covid, como em relação a muitos outros temas, é um buraco negro. Não há dados. Não há informação oficial confiável. O nível de mortalidade é elevadíssimo. Infelizmente, pergunte a qualquer venezuelano e todos vão dizer que conhecem mais do que uma pessoa que faleceu por covid. Basta o testemunho aleatório de muitas pessoas para fazer as contas ao nível de mortalidade que houve na Venezuela por causa do covid e da irresponsabilidade na gestão da pandemia por parte da ditadura foi muito elevado. Não há apoio médico e também não há vacinas. Há um mercado negro de vacinas, que se vendem entre 150 e 300 dólares, num país em que o salário mínimo é de três dólares ao mês. Isso significa que as vacinas, as poucas que chegaram, só estão a ser distribuídas entre as estruturas próximas do poder.

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Por Susana salvador – DN – Portugal

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